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Festa da Abundância*

Festa da Abundância*

Memorial da America Latina

  • Autor: O Mundo Cabe em SP
  • Data da Publicação: sábado, 25 janeiro 2014. 22:39
  • Categoria:
  • Endereço: Avenida Auro Soares de Moura Andrade, 664 - Barra Funda
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Album

Chegamos no Memorial da América Latina por volta das 10h e as barraquinhas ainda estavam sendo montadas. O que se via eram as Alasitas, miniaturas artesanais que dão o nome à festa folclórica boliviana, elas servem para representar todo o tipo de coisa que se pode desejar: casas, carros, ônibus e malas para atrair viagens, cadernos e diplomas para atrair estudos, máquinas de costura e terrenos em construção para atrair empregos, cestas básicas, várias notas de dólares, reais ou dinheiro boliviano além de cofrinhos com formato de animais para atrair dinheiro. Os itens particularmente mais curiosos são galos e galinhas para atrair, respectivamente, companheiros e companheiras e também pequenas esculturas de barro que representam pessoas em trajes típicos bolivianos para poder encontrar parentes perdidos.

Alasitas_2

Segundo a tradição os objetos devem ser comprados antes do meio dia, pois nessa hora eles são levados à um yatiri (feitiçero) para serem abençoadas. Os preços dessas oferendas variam de acordo com o tamanho da peça e com a quantidade de dinheiro de mentirinha que acompanham – sim, todas as peças vêm cheia de dinheirinhos – e nós como bons estudantes universitários que somos, pesquisamos bem o preço e compramos uma maletinha azul sem notas pra atrair viagens e pagamos apenas cinco reais.

Os yatiris ficavam em barraquinhas no centro da praça Vitor Civita, onde aconteceu toda a festa, e havia um em especial com a fila muito maior do que os outros, nós perguntamos pro pessoal que estava ali esperando pela benção e descobrimos que aquele era o mais conhecido na comunidade Boliviana e por isso tinha mais crédito entre os fiéis. Diante desse argumento não tivemos mais dúvida sobre qual yatiri escolher e nos atiramos ao final da fila. A maioria das pessoas estava com pelo menos um exemplar de cada miniatura disponível (vimos uma moça com uma quatidade razoável de galos…) e um daqueles típicos panos bolivianos. Como nós não queríamos casas e nem carros ficamos satisfeitos em levar apenas nossa malinha azul para garantir umas viagens e nada mais.

Só que: aquela era a festa da abundância, ou seja, não há muita abundância em uma malinha azul sem o gordo recheio de dólares e que custou apenas R$5, mas nós só entendemos isso quando o yatiri mais famoso da comunidade boliviana nos perguntou aonde estava o resto das oferendas, por sorte ele foi bem camarada e mesmo assim benzeu nossa singela oferenda que depois foi reabençoada por um Padre durante a cerimônia ecumênica (confesso que entrei umas três vezes na fila só pra garantir).

Ficamos para ver como é a cerimônia correta. Primeiro cobre-se uma mesa com o paño e coloca-se a oferenda por cima, esse pano boliviano é necessário para facilitar o trabalho de carregar a quantidade realmente abundante de alasitas que se costuma oferecer. Então o yaitiri joga um pouco de cerveja em cima das oferendas, segundo uma boliviana chamada Ociro, que nos explicou tudo, a cerveja não precisa ser de uma marca específica. Depois desse primeiro banho se faz uma trouxinha com o paño e as alasitas e assim o yatiri passa ela várias vezes por uma fumaça de incenso e durante esse processo a trouxinha de oferendas recebe outros banhos de cerveja.

Malinha

A Ociro nos explicou que essa benedição não precisa necessariamente de um yatiri, nós a vimos fazer com sua própria família, ela também disse que toda essa cerimônia deve ser repetida durante os próximos três anos e a cada ano compramos mais alasitas e juntamos com as do ano anterior (isso talvez explique a quantidade abundante de oferendas), mas quando o pedido é alcançado essas oferendas devem ser queimadas. Segundo uma outra amiga que fizemos na festa chamada Monica Rodriguez, essa celebração só acontece na cidade de La Paz e lá se usa alcóol boliviano ao invés de cerveja.

Benedição das oferendas

Após as benedições do meio dia, acontece a apresentação do deus da abundância Ekeko, ele aparece com a roupa cheia de dinheiro, embalagens de comida e doces espalhados pelo corpo e após fazer uma prece ele anda pelo povo distribuindo dinheiro (em espanhol, billetes). A Monica nos explicou ainda que essa tradição começou após um duro período de guerra quando os habitantes de La Paz passavam muita fome, segundo a lenda num dia 24 de Janeiro, quando é celebrada a festa, um anão “bem gordjinho e cheio de djinheiro ia para a casa das pessoas e ali deixava a comida na mesa”, esse anãozinho seria o próprio deus Ekeko.

Ekeko

Haviam poucas pessoas que não eram bolivianas ou descendentes; nas barraquinhas de comida, onde se vendia as alasitas e também o animador da festa só se falava em espanhol, podemos dizer realmente que vivemos a experiência de conhecer um país estrangeiro estando ali no Memorial da América da Latina. Nossa primeira expedição foi muito bem sucedida e gostaria de deixar aqui um agradecimento especial à Ociro, Mônica e Marlene que conhecemos durante a festa e pacientemente nos ensinaram muito sobre a cultura boliviana, o carinho de vocês em nos receber foi muito inspirador para esse início de projeto, por causa de vocês podemos dizer que tivemos uma sensação única, maravilhosa e surpreendente de sermos bem recebidos como estrangeiros em nossa própria casa.

 *A festa das Alasitas  é organizada pela Praça Kantuta com o apoio da Fundação Memorial, Bolivia Cultural, CAMI (Centro de Apoio ao Migrante) entre outros para mais informações sobre a festa acesse (http://www.boliviacultural.com.br/ver_noticias.php?id=2370)

 

    4 Comentários

  1. Nathalia Césare

    Tentarei ir ano que vem. =)

  2. Poxa, projeto muito bacana!
    Um dos meus sonhos visitar o Memorial…
    Viva a America Latina!

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