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Dança Indiana – Entrevista com Irani Cippiciani

Dança Indiana – Entrevista com Irani Cippiciani

O Mundo Cabe em SP
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Irani Cippiciani é atriz formada na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo e dançarina de música indiana. Durante apresentação de dança indiana no Sesc CARMO presenciamos uma conexão intensa e sincera entre artista e público. Depois da apresentação conversamos sobre essa forte impressão que a dança indiana provoca, as relações entre Índia e Brasil e ainda aprendemos um pouco mais sobre as tradições da Índia.

Leia a entrevista logo abaixou, ou se preferir, assista:

Como foi que a dança indiana chegou até você?

Na verdade eu sou atriz do formação, trabalho com teatro há 20 anos e conheci a dança indiana através de uma bailarina que veio ao Brasil muitos anos atrás que dançou um estilo de dança indiana chamado de odissi. E eu fiquei encantada porque era uma atriz no começo de carreira e ainda vivia aquele dilema de como movimentar sem falar ou não falar e movimentar, aquele dilema de ator iniciante, ainda sem experiência e quando eu vi a expressividade daquela mulher em cena, notei a capacidade dela de se comunicar sem usar palavra.

Eu pensei que isso seria muito bacana pra enriquecer meu trabalho como atriz, mas não tinha a pretensão de ser bailarina de dança indiana, então foi assim que eu cheguei à dança indiana. Obviamente que quando comecei à estudar eu me apaixonei e nunca mais consegui largar. Eu continuo sendo atriz, mas acabei virando bailarina de dança indiana.

Você percebe a presença da Índia nas coisas práticas do cotidiano?

Aqui no Brasil eu não sei se pelo ponto de vista cultural, mas acho que do ponto das especiarias sim, até pela tradição portuguesa que foi à Índia atrás das especiarias e de certa maneira a gente também absorveu um pouco desse hábito. Mas eu diria que a maior semelhança que encontro é a índole do povo, o povo brasileiro e o povo indiano tem uma índole semelhante, são pessoas que recebem bem os outros, que são cordiais, que são gentis, que são alegres, é uma cultura festiva como a nossa, então pra um brasileiro a gente se sente meio em casa nesse aspecto das relações humanas. A cultura é muito diferente, tudo é muito diferente, mas tem esse fator humano que eu acho que é muito similar.

Além da dança, o contato com a Índia teve outras influências na sua forma de pensar? O que mudou para você?

Eu acho que mudou muitas coisas, não só pela convivência com a cultura Indiana como a questão da filosofia, de uma visão mais holística do mundo, uma visão mais espiritualista, não necessariamente religiosa, porque eu não tenho religião. Às vezes as pessoas se chocam um pouco quando eu digo isso, porque normalmente quem trabalha com a cultura hindu acaba desenvolvendo [ a religião] também. Não é o meu lado, mas enfim, é o lado de muita gente.

Como eu já fui muitas vezes à Índia e convivi muito com as pessoas lá, a sensação que eu tenho é que a mudança mais profunda mesmo é na forma como eu encaro as dificuldades do meu cotidiano. As primeiras vezes que fui pra Índia eu sofri muito com a questão da falta das coisas, a gente tem aqui coisas que parecem muito bobas e que lá não são, lá não tem, lá não é dessa maneira e ao mesmo tempo lá as pessoas parecem sempre muito mais satisfeitas do que a gente aqui. Lá existe uma resignação que por um lado preserva um certo caos social, mas por outro lado também é bom, porque as pessoas são felizes, o índice de violência é muito menor do que o nosso embora a pobreza seja muito maior do que a nossa, então me ensinou a tentar ficar em paz nas dificuldades.

O maior ensinamento que eu tive foi isso, é aprender a viver bem com as dificuldades e os problemas, com aquilo que não pode ser, acho que essa é uma grande lição pra quem vai à Índia.

Qual é a recepção que você percebe em suas apresentações?

A dança indiana de um modo geral é muito interpretativa, ela é muito expressiva e eu tenho oportunidade de olhar muito pras pessoas, então quando eu estou contando uma história, ora eu to olho para você, ora eu olho pra ela, ora eu olho pra uma personagem invisível. Eu tenho essa possibilidade de comunicação direta então é muito fácil perceber quando você tá conseguindo manter essa comunicação quando as pessoas tão conseguindo entender o que você tá fazendo e quando não, quando há uma lacuna e você percebe que as pessoas estão meio aéreas. Acho que própria dança propicia isso porque ela é muito teatral, tanto que não é uma dança – na minha avaliação – pra grandes auditórios porque a pessoa que senta muito longe de você que não pode ver detalhes da tua expressão de olho, do teu rosto ela perde uma parte muito significante da dança.

Você dá aulas? Onde? Há quanto tempo?

Eu dou aula no meu espaço que fica no Butantã e se chama Espaço Cultural Caldeirão é a sede da minha companhia de teatro e nos horários que a gente não está ensaiando eu dou aula de dança indiana

E lá eu ensino os três estilos clássicos que eu pratico que é o Bharatanatyam, o Kuchipudi e o Mohiniyattam que são todas danças clássicas, mas de regiões diferentes da Índia. Tanto o Bharatanatyam quanto o Kuchipudi , quanto o Mohiniyattam  são danças chamadas clássicas, ou seja, pertencem à tradição clássica da Índia, mas elas tem tempos de existência diferentes. O Bharatanatyam nasce no estado de Tamil Nadu que é no sul da Índia e tem  por volta de três mil anos de existência, o Kuchipudi  nasce no estado acima que se chama Andhra Pradesh e tem mais ou menos quinhentos anos de existência e o Mohiniyattam nasce no estado ao lado que é Kerala e tem também aproximadamente 500 anos de existência

Todas elas vem de um substrato cultural comum que é o hinduísmo, a filosofia hindu, no entanto, é como se cada estado absorvesse isso de uma maneira diferente. É importante saber que cada um desses estados fala uma língua diferente, tem hábitos culturais, alimentares, de vestimenta e comportamentais diferentes, então é como se cada uma dessas danças criadas, apesar de ter uma série de coisas que são comuns, chegasse à coisas muito diferentes porque o ser humano que tá executando aquilo em cada região é diferente. A gente não sabe muito bem como é isso por que o Brasil é uma língua só, eu falei de três estados vizinhos aonde cada um fala uma língua e só isso já provoca uma mudança absurda.

Então as diferenças nas danças começam aí, o Bharatanatyam é mais geométrico, é mais linear, ele trabalha muito com ângulos com a criação de ângulos e linhas. O Kuchipudi  é mais sinuoso, como ele vem de uma tradição de teatro popular as expressões faciais são mais histriônicas, são mais exageradas do que no Bharatanatyam em que a expressão facial é um pouco mais contida. O Mohiniyattam m também descende de uma outra dança teatro no estado de Kerala que se chama Kathakali, que são aquela maquiagens coloridas. Só por aí, só por essas coisas você já consegue perceber que corporalmente os resultados serão diferentes.

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